Onde (e quando) Santa Maria vai parar?

 

Cruzamento entre Av. Presidente e Serafim

 

O trânsito de Santa Maria vem crescendo nos últimos anos.  A cidade não foi projetada para acompanhar esse crescimento. E como os diferentes personagens dessa história vêem isso?

 

Ruas e calçadas estreitas, muitas delas em condições precárias, falta de sinalização, imprudência, e desrespeito mutuo entre pedestres e condutores. Fatores que dificultam, e muito, o trânsito de Santa Maria, como relata o nosso primeiro personagem Aleson João de Vargas Stuker, brigadiano há dois anos e meio. “Trabalho nas motos 6 horas diárias, das 12 às 19 horas”. Durante sua jornada de trabalho, ele tem de lidar com o que considera os dois horários

Horário de saída do Colégio Sant'anna

com maior fluxo de automóveis e pedestres: das 12:00 às 13:30 e das 17 às 20 horas. “Esses são os horários que todos entram e saem do trabalho, escola e faculdade. E também tem o horário de almoço que é bem complicado”. E sobre isso, ele, além de opinar como agente da lei, também opina como condutor, já que ao sair de seu trabalho precisa correr para a faculdade de direito, onde cursa o 2º semestre.

Vários pontos da cidade estão se tornando críticos. Stuker cita a Avenida Presidente Vargas e a Rua Floriano Peixoto como exemplos. Nisso Roberto Schaich de Almeida, gerente do DEMIT, Departamento Municipal de Trânsito de Santa Maria, concorda e apresenta algumas alterações que serão feitas na área central para melhorar o fluxo do trânsito. “Na Floriano será proibido estacionar entre a Rua dos Andradas e a Rua Venâncio Aires. E para as duas principais avenidas da cidade, a Presidente Vargas e a Medianeira, o projeto é de que em todas as suas extensões não será mais possível converter à esquerda, ganhando um tempo no semáforo e garantindo um fluxo melhor. E ainda temos a mudança na Rua Dr. Astrogildo de Azevedo, aonde quem vem pela Rua Professor Braga poderá entrar à esquerda e ter acesso à Floriano”. Roberto também cita o projeto de duplicação da Rua Duque de Caxias, entre a Avenida Medianeira e a BR 158, que esbarra nas indenizações a serem pagas aos moradores. Para quem não conhece, o DEMIT é o órgão que amparado pelo Artigo 24 do Código de Trânsito Brasileiro, tem como função fiscalizar o trânsito, o controle de cruzamentos e a parte executiva da Secretaria de Controle e Mobilidade Urbana.

Segundo dados da Prefeitura de Santa Maria, hoje circulam 110 mil veículos, sem contar com a frota flutuante (automóveis registrados em outras localidades, ou que vem, à passeio ou trabalho, para a cidade). E a cada mês desse ano, foram vendidos em média, 425 novos veículos em Santa Maria. Com essa frota crescente, além da engenharia não apropriada, a cidade também enfrenta outro vilão. “A falta de responsabilidade, educação e conscientização geram imprudência. Aquela velha história de “não acontece comigo”, é um bom exemplo da falta de consciência das pessoas. Temos a Lei Seca, mas não é cumprida. Para o condutor, mudar, só quando pesa no bolso, eles vêem o carro como um brinquedo, mas nas mãos de um mau condutor ele vira uma arma.” diz Roberto, apoiado nas estatísticas sobre as multas aplicadas em Santa Maria. Todos os meses, são registrados entre 65 e 70 acidentes, e só no mês de setembro, foram aplicadas 270 multas pelo não pagamento da zona azul. E em blitzes noturnas, principalmente nos finais de semana, os jovens são campeões de ocorrências, as principais são: não utilização do cinto de segurança, manobras perigosas e embriaguez. Numa visão geral, temos como a infração mais cometida o estacionamento irregular (em local de carga e descarga, vagas de deficientes físicos, farmácias e vagas de embarque e desembarque).

Os acidentes de trânsito, além do gasto pessoal dos envolvidos, também geram um gasto para União. “O acidente acontece, é necessário chamar os bombeiros, que vão levar os feridos ao pronto-atendimento onde serão encaminhados a algum hospital, como por exemplo, o HUSM onde além dos gastos com internação, poderão necessitar de procedimento cirúrgico e na pior das hipóteses a pessoa pode ficar inválida e precisar se aposentar mais cedo que o esperado.”

Para tentar mudar essa realidade a logo prazo, o DEMIT investe em educação para crianças e jovens. Ele realiza um projeto a 11 anos, junto com a empresa Expresso Medianeira e os postos Ipiranga, que atende crianças, até o 4º ano do ensino fundamental, conscientizando-os sobre assuntos fundamentais do trânsito, como funcionamento dos semáforos, uso de cinto e faixa de pedestres. O agendamento dessas palestras ocorre em janeiro pelas escolas junto ao próprio DEMIT e realizadas ao longo do ano letivo.

Outras entidades também desenvolvem projetos relacionados à questão de educação no trânsito. O Centro de Formação de Condutores Viacentro, através do projeto Via Trânsito, ministra palestras em escolas e empresas, “As palestras são gratuitas, a instituição interessada precisa entrar em contato e agendar um horário, o tema a ser abordado é escolhido de acordo com as necessidades.” diz Fábio Cantareli Marques, gerente comercial do CFC Viacentro.

E falando em segurança no trânsito, não podemos esquecer o programa Vida Urgente, desenvolvido pela fundação Thiago de Moraes Gonzaga, que possui um conjunto de atividades que, através da conscientização visam humanizar o trânsito em nosso país. Para o Vida Urgente, mais que um problema de Polícia Rodoviária, Secretarias de Transporte e Segurança, o trânsito é uma questão de mudança de comportamento e educação.

A fundação que criou o projeto nasceu de uma tragédia, quando os pais de um jovem morto em decorrência da violência no trânsito, decidiram desenvolver ações de educação e conscientização para diminuir os acidentes de trânsito, principalmente os que envolvem jovens. Além de também desenvolver palestras em escolas, principalmente no 3º ano do ensino médio, e empresas, eles também atuam junto com Policiais em blitzes, geralmente no trevo do castelinho. Nas últimas blitzes eles abordaram temas ligados às crianças e ao uso da cadeirinha.

E sobre as borboletas? Quem nos esclarece o tema do projeto “Borboletas pela vida!” e a pintura nas vias públicas é a coordenadora do projeto Vida Urgente em Santa Maria, Ceres Zago: “O DEMIT manda uma lista por ano de quantos acidentes fatais ocorreram, e uma vez ao ano são pintadas novas borboletas nos locais e retocadas as antigas. Elas não são pintadas em rodovias, pois, se fossem, poderiam atrapalhar os condutores. Nesse ano, por exemplo, a pintura foi realizada em 11 de março.”

No quesito educação, Fábio já vê uma melhora, “De cinco anos pra cá, a coisa mudou, antes se você tentasse atravessar na faixa de pedestres, morria, hoje muitos carros já param e dão a preferência ao pedestre.” Ainda para ele, o problema está em o condutor não respeitar o pedestre, mas esse mesmo condutor quando está na condição de pedestre exige ser respeitado. “Nós, nos centros de formação, educamos em relação ao trânsito, mas o que vai fazer o condutor seguir ou não as nossas orientações são os princípios que ele traz de casa.”

Ele também aponta a questão das motos como algo importante, a lei prevê que as motos ocupem o mesmo espaço que seria destinado a um carro, mas isso, na prática, quase nunca é cumprido.

Pedestres utilizando a faixa de segurança

Os pedestres realmente sofrem com o trânsito de Santa Maria, e Paulo Ricardo Schmidt Pauli, vendedor, não viu tanta evolução no quesito educação. Todo dia, pelo seu trabalho, ele circula entre a Vila Oliveira e o Bairro Dores. “O fluxo de automóveis em certos pontos é muito grande, o que dificulta atravessar a rua e por certas vezes me atrasa.” Ele também reclama da falta de fiscalização, mas mostra que está fazendo sua parte “Eu sempre prefiro atravessar a rua na faixa de segurança, mas onde não tem semáforo é muito difícil, pouca gente para e dá a preferência.”

Com tantos problemas na vida cotidiana, o trânsito acaba sendo uma válvula de escape, onde como disse o gerente do DEMIT “Às vezes o problema não é tão grande, mas as pessoas acabam fazendo tempestade em copo d’água”. As acadêmicas do 9º semestre do curso de Psicologia da FISMA, Kelli Sacol e Margarete Coronel, concordam com a afirmação e acrescentam: “Os problemas que as pessoas geram no trânsito, na verdade, refletem os problemas não resolvidos na vida pessoal. Isso é muito perigoso, pois uma discussão boba pode acabar virando caso de polícia. Fatores psicológicos como ansiedade, irritabilidade e estresse prolongado podem gerar lapsos de memória e, por conseqüência, acidentes. Além disso, um trauma causado, por exemplo, por acidentes de trânsito, pode ocasionar em distúrbios comportamentais, como a síndrome do pânico.”

Já para a fisioterapeuta Camila Dorneles as repercussões do trânsito na qualidade de vida, são inúmeras. Ela relata que o condutor, dirigindo sob estresse, tem aumento da tensão muscular, ocasionando cãibras e dores. E a exposição prolongada à direção pode gerar alterações musculoesqueléticas, como encurtamentos musculares, tendinites, bursites, alterações posturais e problemas articulares.

Sobre a educação no trânsito ela ressalta, usando como exemplo sua experiência pessoal, o papel de qualquer profissional da área da saúde: “Há pouco tempo, a caminho de casa, presenciei um acidente envolvendo um motociclista e sua carona. Parei e prestei os primeiros socorros. Aprendemos na faculdade coisas para a vivência prática, então temos de prestar socorro.” Ela ainda diz que, além disso, o fisioterapeuta é capacitado para orientar sobre postura e ergonomia.

A fila nas sinaleiras exige paciência

O trânsito em Santa Maria está cada vez mais intenso, e querendo ou não fazemos parte dele, e se quisermos melhorá-lo, precisamos começar mudando nossa postura, aprendendo a ter paciência e sempre respeitar ao próximo do jeito que gostaríamos de ser respeitados. Independente de sermos pedestres ou condutores é nosso dever conhecer e fazer valer as leis que regem o trânsito. Lembrando sempre que aquilo que atitudes impensadas levam a atos inconseqüentes e errados. E como diz aquele velho adesivo colado em vários carros Santa Maria à fora, lugar de gente nervosa não é atrás do volante. E cabe aos cidadãos também cobrar das entidades responsáveis maiores melhorias para desafogar o trânsito quando necessário. Sempre lembrando que a mudança começa por nós.

2 Respostas to “Onde (e quando) Santa Maria vai parar?”

  1. O trânsito de Santa maria realmente precisa de um sinal vermelho!!!! É necessário que tanto condutores quanto pedestres cumpram seu papel de respeitar as leis, juntamente com as autoridades que devem propor e executar as mudanças necessárias para um trânsito mais “calmo”. O que será difícil, pois com o crescimento desordenado de automóveis (devido à facilidade de aquisição) se cada um não fazer seu papel, as vias serão como “ringues” de luta!!!!

  2. Muito bem escrito este texto! Parabéns!
    Concordo plenamente!
    Abraço

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: